sexta-feira, 22 de outubro de 2010

SE EU FOSSE SOCIÓLOGO E NÃO APRENDIZ DE ECONOMISTA


Teria percebido o que sucedeu durante as eleições legislativas de 2008. Pois, durante os vários meses que antecederam as eleições eu acompanhei a vida da população e os dizeres que circulavam nos táxis, bem como, nas ruas de Luanda, que eu frequentava com muita assiduidade. Pelos dizeres e pela leitura que se podia fazer nos rostos da população, estava quase certo de que alguma coisa extraordinária estava para acontecer. Uma mudança no poder ? Estaria a ser muito extremista. Porque, mesmo ouvindo e vendo o descontentamento da população, sabia que nós não somos muito corajosos ao ponto de fazer uma mudança tão radical. Mas, sinceramente, pensei que algum resultado equilibrado haveria de sair durante aquelas eleições partidárias, em que o MPLA era o favorito, até porque, era o partido no poder.
Meses muito próximos às eleições, se não mesmo um mês antes, fui notando alguma mudança no comportamento das pessoas em relação à governação. Percebi então que, as pessoas estavam mais optimistas em relação ao futuro e já diziam que  “o partido no poder é que lhes dava o de comer”. Mas a verdade seja dita, as receitas contempladas no OGE não pertencem à nenhum partido são do povo e sempre foram. Como economista percebi que as pessoas tinham alguma razão para mudar de comportamento, num espaço de tempo tão curto.     
Um dos princípios da economia diz que as pessoas reagem aos incentivos. Este princípio diz que as pessoas tomam as suas decisões com base na avaliação de custos e benefícios, logo qualquer alteração desta relação faz com que os agentes tendam a mudar o seu comportamento. Assim, se um indivíduo estiver perante um tradeoff[1], enunciando outro princípio da economia, e a relação de custo - benefício das actividades em análise se altera, ele pode decidir a favor de uma actividade que na situação inicial teria sido preterida. Logo, isto faz-me crer que determinados eventos ocorreram e fizeram com que a relação custo – benefíco, de votar nos vários partidos do nosso país, se alterasse favorecendo determinados partidos em detrimento de outros. Se considerarmos alguns factos que ocorreram na época será possível observarmos como as pessoas reagiram aos incentivos que existiam aquando da tomada da decisão de votar:   
1-     Durante os meses que se aproximaram as eleições a polícia nacional teve um comportamento digno de um cordeirinho. As corridas nos mercados abrandaram, isto é, correrias idênticas as que se verificavam na Avenida Deolinda Rodrigues já não se viam de graça;
2-     Houve um acelerar das obras em toda a capital do país, parecia mesmo que a cidade estava a mudar, até eu acreditei no que via e no que poderia ver apôs a conclusão das obras;
3-     Ao sair de Luanda já se avistavam melhorias, e a população não é cega;
4-     O Huambo, o até então bastião da UNITA, estava rejuvenescido, e como disse um primo em 2007 – a cidade está muito mudada, sem que eu concordasse mantive-me calado;
5-     Uma avalanche de renúncias assolou o, até então, maior partido da oposição;
6-     A economia parecia não ter sido afectada pela crise financeira e económica, que estava a assolar o mundo inteiro;

Os factos, acima, apresentados são uma amostra da população de incentivos que antecederam as eleições. Estes factos parecem não ter valor económico, mas por incrível que pareça têm. Todos estes factos, em princípio, concorrem para a melhoria do bem estar das populações.
Assim sendo, o facto das Zungueiras, os Roboteiros e os Lavadores de carro poderem realizar as suas actividades sem serem perturbados pela polícia aumenta a receita diária de cada um destes agentes económicos, que no final do dia são eles que alimentam grande parte das famílias mais carentes do nosso país.
A reparação das estradas bem como a sua expansão até as localidades mais recônditas do país representam uma despesa de capital, com grande valor acrescentado, pois possibilita a livre circulação de pessoas e bens, facilita a criação de novos negócios, faz com que a produção possa escoar produção de localidades potencialmente agrícolas para localidades com capacidade industrial e com um público consumidor muito maior. As estradas ajudam a consolidar a integração local, que se dá quando existe livre circulação de pessoas e bens de uma região para a outra dentro de um mesmo país. O Relatório de Desenvolvimento do Banco Mundial de 2009, com o título “O Desenvolvimento em 3D”, faz uma bela abordagem sobre a integração local.
A saída massiva de membros da UNITA passou o sinal de falta de organização e confiança dentro do maior partido da oposição em particular, e a nível da força da oposição em geral. É claro que centenas de eleitores mudaram as suas escolhas quando estas desistências aconteceram. Houve aqui uma clara percepção por parte do eleitor de que os benefícios de votar neste partido da oposição estavam a reduzir. Houve aqui uma clara demonstração de que este partido não seria capaz de governar o país, com falta de coesão interna.
O facto dos efeitos da crise terem chegado aos nossos ouvidos só depois das eleições, foi um grande incentivo para que o partido no poder merecesse mais alguns votos de confiança. Mas é claro que não tardou para que a verdade viesse à tona, pois, não estávamos de todo imunes a crise. Se os eleitores soubessem disto, em princípio, teriam mudado as suas decisões. Porque os agentes económicos reagem a incentivos.
Para as próximas eleições espero sinceramente que os nossos partidos políticos e os seus fazedores de opinião estejam mais atentos aos incentivos. Pois, definitivamente, como consta dos livros de Economia de Paul Samuelson e de N. Gregory Mankiw, os agentes reagem a incentivos. Logo basta que a relação custo benefício se altere para que algumas decisões passem de preferidas a preteridas.


[1]  Os agentes deparam-se sempre com diferentes possibilidades de escolha aquando da tomada de decisões.

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